O filme “Le Prince de ce Monde”, de Manu Gomez, aborda os preconceitos, os medos, os desejos do Homem, que o podem levar à loucura, à insanidade e à sua própria destruição.
É o medo do padre Donato, que, apesar de tentar procurar uma vida calma numa aldeia, acaba por se ver subjugado e manipulado por uma seita satânica. A fragilidade que se verifica na personagem principal, o padre Donato, é a mesma de toda a Humanidade que, durante séculos, se esforçou por esconder os seus mais íntimos desejos, prazeres, tidos quer por pensamentos quer por actos. Para “lavar” esses pecados, as pessoas submetem-se à Fé Católica, sem perceberem que o desejo sexual é a semente da vida, o estímulo mais natural do Homem. A fuga contínua aos prazeres da carne leva um padre, bondoso e apaixonado, a cometer crimes horrendos, assim que se vê preso nas armadilhas que a seita satânica lhe preparou. Assim, um “homem de Deus” sacrifica a mulher que ama e o filho que concebeu num ritual ninfomaníaco, como se pagasse a quebra dos seus votos de castidade, redimindo-se dos seus pecados.
O filme de Manu Gomez, através de um enredo repleto de acções simbólicas, como, se pode verificar no início do filme quando o padre queima as revistas pornográficas guardadas no seu novo quarto na paróquia, quando a diabólica Baronesa Florence de Bailleux cospe a hóstia. São também os sonhos e pensamentos do padre Donato da jovem com quem tem relações, a confissão da filha de Florence, a jovem Dominique, dos seus actos de masturbação e da sua possessão pelo demónio, as jovens internadas num hospício vitimizadas pelos rituais diabólicos e, também, as maldições lançadas à jovem amada por Donato, que deixam o espectador compreender o desenlace, o final trágico da história. São essas acções que, mesmo alternadas com acções que transmitem a paz, a calma, a serenidade de uma Igreja e de um padre que luta por uma vida calma e de fidelidade aos seus votos, conduzem a uma destruição dos valores de uma Humanidade assustada e atormentada por Satanás.
É uma história dura, forte, que reflecte que a luta entre o Bem e o Mal não passa de uma farsa, de uma causa perdida, de uma luta ridícula e sem motivo, despoletada pela negação da própria natureza do Homem. É um retrato de uma fé que acaba por cair nas mãos dos pecadores. Na minha opinião, o filme afirma que duas “crenças” opostas e em conflito acabam por ser dois pólos que se atraem. O padre Donato, lutando por não cair nas tentações mundanas, acaba por matar a aristocrata Florence que o seduz e o manipula para que este se torne membro da seita satânica a que pertence. No fim do filme, caído na teia perigosa e infalível de Satã, paga este homicídio com o sacrifício da sua namorada e do seu filho.
A meu ver, todas as acções no filme que constituem as tentativas de persuasão de Donato, armadilhas essas nos quais o padre, tentado, cai, são o clímax do filme. Desenrolando-se a história em torno dessas acções, o espectador é conduzido para um desfecho trágico, no qual se situa o momento de maior suspense, que é o ritual de sacrifício da mulher que ama e do filho, e a chegada dos polícias que o prenderiam e condenariam.
Este filme de Manu Gomez é muito forte, que interroga e abala princípios e valores muito polémicos, e que pode despoletar muita polémica em públicos mais conservadores.